Ratos fugindo com um sapato, um lince que analisa uma bolsa como quem pensa em levá-la também e uma raposa desenhada acompanhando Maya Hawke por um caminho de neve. Essas são algumas das cenas de “Drawing Prada: Animated by Hand”, campanha para o Natal 2026 da Prada, que mistura fotografia e live action com personagens, paisagens e cenários ilustrados à mão.
À frente da animação está John Pomeroy, nome com cinco décadas de história no cinema animado americano. Ele entrou na Disney nos anos 1970 e trabalhou em filmes como Bernardo e Bianca e O Cão e a Raposa. Em 1979, deixou o estúdio ao lado de Don Bluth e Gary Goldman para fundar a Don Bluth Productions, responsável por A Ratinha Valente, Fievel: Um Conto Americano e Em Busca do Vale Encantado. Anos depois, voltou à Disney e supervisionou a animação de John Smith em Pocahontas.
O elenco reúne Maya Hawke, Sadie Sink, Kelvin Harrison Jr., Luther Ford e Chen Haoyu, apresentados pela marca como uma nova geração de talentos globais. Hawke e Sink, que dividiram a tela em Stranger Things, já vinham aparecendo com frequência nas ações da grife. A fotografia e a direção dos filmes são de Glen Luchford, parceiro de longa data da Prada, que planejou luz e perspectiva para que os atores ocupassem o mesmo espaço visual dos desenhos. A direção criativa é de Miuccia Prada e Raf Simons, com direção criativa de campanha de Ferdinando Verderi.
O resultado não tenta disfarçar a técnica e o contraste prevalece nas cenas com os animais parecendo ilustrações, os cenários mantendo traços, manchas e texturas de papel, e os atores claramente fotografados. A própria Prada define o desenho à mão como uma técnica “anacrônica e romântica” e o coloca como o verdadeiro protagonista da série de filmes e imagens. O argumento é que as histórias de fim de ano passam de geração em geração, assim como as fábulas e os personagens desenhados, e a campanha bebe tanto no charme da velha Hollywood quanto nos livros infantis de inverno. Os produtos das coleções feminina e masculina de fim de ano entram nessas pequenas narrativas como objetos de desejo até para os bichos.
A marca também lançou um filme de bastidores dedicado ao processo de Pomeroy e da equipe de ilustradores, mostrando os personagens surgindo primeiro no papel antes de contracenarem com o elenco. Na cobertura internacional, a Hypebae destacou que o projeto não envolve inteligência artificial, ponto que acabou virando um dos principais assuntos em torno da campanha.
O movimento conversa com uma série de projetos que transformaram o trabalho manual em mensagem ao longo de 2026 para se manifestar contra o uso exagerado de IA pelas grandes marcas. Em Cannes Lions, a identidade da Apple TV, com vidros, luzes e movimentos produzidos fisicamente e filmados em câmera, levou o Grand Prix de Design, enquanto as cafeterias em miniatura da De’Longhi, construídas durante meses pelo cenógrafo Simon Weisse, ficaram com o Grand Prix de Industry Craft. Mais recentemente, a Oura montou uma cidade inteira em miniatura e colocou performers para “caminhar” com os dedos em vez de gerar o cenário digitalmente e a Apple replicou novamente o movimento de produção humanizada para apresentar a nova identidade visual do Apple Music.
A diferença é que a Prada não vende o projeto como um manifesto contra a IA. O discurso oficial fala em toque humano, técnica e narrativa, valores que o luxo associa ao ateliê há décadas e que agora são levados para dentro da publicidade. A escolha também se destaca em uma temporada de fim de ano marcada por produções com celebridades, como o musical da Swarovski estrelado por Ariana Grande e a campanha da Tiffany com Amanda Seyfried. E segue a linha de outra aposta recente da grife, que chamou o diretor Barry Jenkins, vencedor do Oscar, para conduzir sua campanha de outono/inverno 2026 com Hunter Schafer e Troye Sivan.
