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O dia em que eu saĆ­ da faculdade e dei de cara com um novo Brasil

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✨ O que você precisa saber:

  • O autor presencia cenas de violĆŖncia e tumulto durante um protesto contra o aumento das passagens e acaba buscando refĆŗgio na universidade.
  • A situação caótica afeta o transporte pĆŗblico, com trens lotados e atrasados, deixando as pessoas esperando por longos perĆ­odos.
  • As redes sociais desempenham papel crucial na divulgação dos eventos e mobilização da população, com destaque para o Tumblr como plataforma para reunir provas de abusos de poder.

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19h20 marcava o relógio. Eu estava um tanto preocupado, pois acabava de sair da minha prova de SIC, abreviação de uma matéria que atormentou minha vida todo esse semestre. Ao por o pé pra fora do edifício Reverendo Wilson do Mackenzie, eu me sentia como se tivesse viajando no tempo. O fato é que meu nervosismo estava prestes a sumir, porque o Brasil da forma como eu conhecia estava prestes a sumir.

Parecia que tinha sonhado e estava ali na tĆ£o falada Ditadura Militar. O cĆ©u estava vermelho e refletia flashes de bombas que explodiam. A mĆŗsica de fundo era um misto de sirenes com explosƵes e a cada vez que eu olhava em direção Ć  rua da Consolação uma grande dĆŗvida pairava sobre minha mente: “Estamos em guerra e ninguĆ©m avisou?”

Eu sabia que haveria um ato contra o aumento das passagens. Sabia também que a polícia estava atuando com demasiada truculência, mas não tinha ideia do que estava prestes a presenciar. Era a amostra de uma guerra civil. O início de uma revolta nacional, o estopim de anos de impunidade política e criminal.

O portão da rua Piauí estava praticamente fechado. O segurança segurava a porta como quem guarda o PalÔcio do Planalto. Hora de entrar na Faculdade novamente para me proteger. Atravessei a Universidade e ao chegar no portão que dava à Maria AntÓnia, notei que a coisa era realmente séria. O portão estava fechado, ninguém poderia sair por ali.

A portaria principal da Consolação eu não tenho ideia de como estava, mas a exemplo das outras portarias devia estar covardemente fechada. Era difícil de entrar e sair, afinal por motivos óbvios, a instituição tinha medo de que a ira pudesse se voltar contra a própria universidade.

A última alternativa possível foi feita. Corri para minha última opção no quarteirão em que se encontra a universidade: Rua Itambé. O portão estava aberto enquanto os seguranças pareciam inquietos sem saber o que fazer.

Desci com medo. Medo de ser atingido por alguém. Medo de ser confundido com um manifestante, medo de ser confundido com um ser que exerce sua cidadania, que cobra a democracia, que acredita num mundo melhor. Desci desejando que aqueles homens fardados olhassem para minha cara e não vissem nada além de um covarde que pela infelicidade do destino cruzava o caminho daquelas pessoas.

Chegando na estação Santa Cecília do MetrÓ, adivinhem só: o transporte público, pauta de toda aquela guerra, estava um caos. Os trens andavam em velocidade e quantidade reduzidas. Cada trem que parava estava tão cheio que nem mesmo os paulistanos mais acostumados a serem dublês de sardinha conseguiam entrar. Enquanto isso, trens vazios passavam o tempo todo por nós indo em direção a Ôreas mais críticas, como República e Sé.

2013-06-13 20.33.14

Resultado: uma hora e meia esperando feito retardados, com direito até mesmo a tentativas suicidas de parar um trem vazio, como a do senhor querendo pular na via para que o trem parasse para não atropelÔ-lo e assim todos pudessem embarcar (!).

Nesse meio tempo a tecnologia foi minha companheira. Eu e mais dois amigos acompanhamos minuto a minuto tudo o que estava acontecendo, horrorizados. A cada “Puxe/Solte para atualizar” dado no Facebook ou no Twitter o que se via era atrocidades e mais atrocidades feitas por quem deveria estar ali para nos proteger. Aqui vai o top 4 mais impressionante na minha opiniĆ£o.

E na TV? Eram propagadas coisas como essa enquete tendenciosa do Datena (que se deu mal e precisou mudar o discurso pra não passar vergonha ou perder audiência):

datena Ou esse dispensÔvel comentÔrio do Arnaldo Jabor, que sequer consegue fazer novos filmes decentes e quer dar palpite burguês em protestos proletÔrios:

Eu me lembro que quando saĆ­ do interior para morar em SĆ£o Paulo, o que mais me fascinava era estar dentro da TV. Cada vez que via um carro de TV, eu vibrava. Minha fixação pelos veĆ­culos de comunicação veio desde tĆ£o cedo que eu nĆ£o sei nem dizer quando comeƧou. Acho que Ć© algo intrĆ­nseco. Mas dessa vez tudo o que eu nĆ£o queria era estar dentro da TV. Era meu medo de ser notĆ­cia, era o medo do que minha famĆ­lia a 170 km de distĆ¢ncia poderia imaginar ao saber que eu estava ali, no meio do fogo cruzado. Tudo o que eu queria era poder gritar. Chamar a polĆ­cia e dizer: “corram, estĆ£o atacando civis de bem lĆ” fora!”, mas, espera aĆ­. Eles eram os criminosos ali e, em uma novela, estavam sendo demonstrados como heróis.

A internet, que foi fator primordial para inúmeras revoluções ao redor do mundo, era a mais nova aliada do brasileiro. JÔ perdi a conta do número de artigos, posts, tuítes etc que jÔ vi ou li em relação a esse movimento. Os ativistas de sofÔ talvez não mereçam mais ser chamados assim, porque eles resolveram levantar e ir às ruas. Não adianta querer minimizar o efeito de sua união, ou a força de suas convicções, muito menos descaracterizar o movimento. EstÔ tudo sólido.

Como mesmo na internet nem tudo sĆ£o flores, o Facebook andou apagando centenas de comentĆ”rios ou simplesmente ocultando-os das devidas timelines por, segundo a empresa, violarem os termos de uso. Chegando atĆ© mesmo a bloquear usuĆ”rios que postaram palavras de agressƵes como no exemplo abaixo, vivido pelo nosso colaborador Guilherme Ibanes, que redundantemente relacionava “ignorĆ¢ncia” ao ato de ler a revista “Veja”:

Print Facebook

O problema Ʃ que o Facebook representa 67% dos acessos a redes sociais enquanto o Twitter, uma rede social mais democrƔtica, ainda fica atrƔs do Orkut em acessos, com aproximadamente 1,75%.

Mesmo assim, a participação das redes sociais teve um ótimo desempenho no nosso país. Acima do que os arcaicos esperavam e no ponto que nós jovens jÔ conhecemos. Com destaque para o Tumblr. O serviço, que é uma mistura de Blogue com Twitter, foi crucial para reunião de provas legítimas de abuso de poder e serviu como púlpito para civis injustiçados mudos por um sistema de governo que faz ecoar em pleno 2013 a icÓnica canção de Chico e Gil de nome ambíguo.

E depois de tudo o que presenciei e vi pelas redes sociais, se houvesse um apagão como na Síria ou no Egito, não ficaria nem um pouco surpreso.

Aqueles que ainda acreditam que a revolta é por R$ 0,20 como nosso querido amigo Jabor, eu só lamento. 20 centavos foram a faísca para reacender a cidadania dentro de cada um dos brasileiros. 20 centavos foi o que bastou para que a população deixasse de lado o pacifismo transformado em passividade. 20 centavos fez com que o brasileiro exercitasse um novo jeitinho: o jeitinho de ir às ruas lutar por seus direitos e de agir como veículo de comunicação voltado aos seus semelhantes. E esse é só o começo. O desfecho estÔ por vir. O que vai dar, eu não sei. Mas de uma coisa eu tenho certeza. Eu vivi a história que nossos filhos aprenderão nas escolas daqui a alguns anos.


Eu queria terminar este post explicando a existĆŖncia de um post com carĆ”ter polĆ­tico em um blog de publicidade e tecnologia. Em primeiro lugar, este Ć© um Blog completamente independente e minha intenção sempre foi falar sobre tudo que faz parte do cotidiano de um “Geek PublicitĆ”rio”. Isso envolve religiĆ£o, polĆ­tica e futebol ou qualquer que seja o tema.

Segundo, quero dizer que como comunicador, uma das primeiras coisas que aprendi em comunicação é que todo texto possui um pronunciamento e é isso que difere uma matéria da outra. E é por isso que vivemos em uma Democracia. Nenhum momento escondi ou esconderei minha opinião. Depois dos fatos descritos neste texto me parece um pouco hipócrita de minha parte continuar a escrever sobre as minhas últimas impressões do mercado Geek PublicitÔrio enquanto uma guerra civil se estabelece lÔ fora. 

Você tem todo o direito de discordar de mim e é por este motivo que existem os comentÔrios ali em baixo. Exponha sua opinião, mas não esqueça de ser educado.

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