Para não se tornar o principal responsável pelos problemas da própria empresa, é fundamental evitar erros comuns na gestão do negócio. Entre os principais estão: misturar contas pessoais com as do negócio, operar sem um “mapa do jogo” (o fluxo de caixa projetado), buscar crescimento sem capital de giro, recorrer a crédito com juros elevados, manter estoque parado e calcular margens de forma imprecisa. Além disso, a falta de acompanhamento de indicadores financeiros compromete a tomada de decisões e a saúde do negócio.
Os alertas de que o negócio está entrando em “modo crítico” aparecem cedo: atrasos recorrentes no pagamento de fornecedores, renegociações mensais de dívidas, uso frequente de crédito emergencial com juros elevados, aumento da inadimplência, queda de faturamento sem um plano de contingência, dependência excessiva de aportes do próprio dono e uma gestão cada vez mais reativa, sem planejamento.
No universo jurídico, os riscos surgem quando os contratos são mal programados: sem cláusulas claras, sem garantias mínimas e cheios de brechas. Eduardo Galvão, advogado tributarista e sócio do Granito Boneli Advogados, alerta que a ausência de planejamento tributário funciona como um fator de enfraquecimento do negócio:“Regime errado, impostos pagos a mais, multas e juros se acumulando ao longo do tempo e, ainda, a chance de surgirem passivos ocultos, como problemas que aparecem de forma inesperada”, compara.
A governança funciona como um mecanismo de estabilidade. Comitês de decisão evitam que uma única pessoa concentre todas as decisões; controles financeiros (ERP, DRE e fluxo de caixa) atuam como painel de comando; auditorias ajudam a identificar falhas; e o planejamento estratégico orienta a missão. Quanto menor o improviso, menores são os riscos de problemas operacionais e financeiros.
Quando o caixa entra na “barra vermelha”, os indícios são claros: prazos de pagamento maiores que os de recebimento, clientes pedindo mais tempo, vendas caindo por ciclos consecutivos e estoque reduzido por falta de recursos. As ações imediatas incluem cortar gastos supérfluos (limpar o inventário), renegociar com fornecedores (alianças temporárias), incentivar antecipações de recebíveis, ajustar preços com critério e revisar o sistema tributário para aliviar o peso do jogo.
Na renegociação de dívidas, a estratégia funciona como montar um “plano de batalha”: mapear todos os credores, entender o impacto de cada um e montar uma proposta baseada no fluxo de caixa real, sem improvisos. Também é fundamental priorizar os compromissos que representam maior risco ao negócio, começando por aqueles que podem comprometer sua continuidade.
Em momentos de crise, o chamado efeito dominó ocorre quando o empresário ignora os sinais de alerta, recorre a crédito com juros elevados de forma emergencial, atrasa fornecedores estratégicos, corta investimentos essenciais, como marketing e reposição de estoque, e não busca apoio profissional no momento adequado. A combinação de omissão e desorganização tende a agravar rapidamente o cenário.
Leila Alvarenga, coordenadora de Civil Contencioso do Granito Boneli Advogados, compara a busca por apoio jurídico à consulta a um especialista antes de enfrentar um cenário mais complexo: “Isso deve acontecer antes de renegociar dívidas relevantes, assinar contratos importantes, ao identificar falhas no caixa, quando os credores passam a pressionar ou quando há risco real de responsabilização do sócio. No ambiente corporativo, a prevenção continua sendo decisiva”.
Para criar um ambiente mais seguro, estável e com menos surpresas, reforça-se a importância das práticas de compliance, que funcionam como regras bem definidas: controle documental rígido, políticas claras para compras e pagamentos, cumprimento fiel dos contratos, treinamento da equipe sobre riscos, auditorias periódicas e monitoramento constante de indicadores.
No fim, as empresas que sobrevivem às crises são aquelas com governança mínima, controles eficientes, decisões rápidas, assessoria jurídica preventiva, negociação estruturada e transparência com a equipe e parceiros — verdadeiros times que sabem jogar em “modo cooperativo”. Já as que não avançam caem nos mesmos “erros de novato”: gestão reativa, decisões emocionais, contratos falhos, confusão patrimonial e inércia diante da crise — um caminho certo para o “game over”.
