Com o boom do Tiktok e a algoritmização das redes sociais, o número de influenciadores teve um aumento repentino no Brasil. Não é só impressão: em 2019, o Hyperauditor afirmava que o Brasil tinha pouco mais de 500 mil influenciadores digitais se concentrando no Instagram como plataforma digital. No ano passado, segundo dados da plataforma Influency.me, esse número já era de 2,1 milhões.
O dinheiro investido no Marketing de Influência também multiplicou seu tamanho. De acordo com o relatório O Horizonte da Creator Economy no Brasil, da Noodle, o país movimentou 5,47 bilhões de dólares com o segmento em 2025 e há uma generosa previsão de que este número chegue a 33,5 bilhões até 2034.
Um mercado construído pelo próprio Marketing
Os grandes responsáveis por este crescimento são os profissionais de Marketing e Comunicação, que passaram anos estudando e ajudando a elaborar estratégias de Marketing de Influência, mas que agora se mostram completamente divididos entre continuar executando seu papel dentro do Marketing ou se jogar na sedutora carreira que ajudaram a construir.
A dúvida é até compreensível, afinal, os números das redes sociais parecem afirmar: “olha, concordamos com você, continue assim”. E em um ambiente de extrema pressão no trabalho e uma sensação constante de estar atrás de todo mundo a nossa volta, quem é que não quer ser bem aceito profissionalmente?
Não há nenhum problema em querer ser um bom profissional e um bom influenciador ao mesmo tempo. Não há, ainda, qualquer problema em deixar uma profissão para executar outra. O grande problema do mercado publicitário brasileiro é que muitos desses profissionais estão completamente distraídos usando do seu poder de decisão para o benefício próprio e dos seus; deixando de lado a estratégia e a qualidade da execução do trabalho que os colocou naquela posição.
O resultado é catastrófico. Como quem acompanha o mercado de Marketing e comunicação há 13 anos, eu nunca vi tantos profissionais do alto escalão executando trabalhos tão medíocres.
O importante é a aparência
Os textos nas redes sociais, por sua vez, são lindos. Na verdade, seriam lindos, se não fossem cheios de vícios que indicam claramente que foram escritos pelo ChatGPT ou qualquer inteligência artificial do momento. As fotos, impecáveis, os vídeos, maravilhosos. A experiência do público que está interagindo com a marca? Um grande desastre.
O desejo pelo alcance virou até estratégia de algumas marcas. Não é difícil ver um número cada vez maior de empresas anunciando influenciadores em cargos de liderança na área de Marketing e Comunicação. Quantos deles entregam resultado na ponta para o consumidor? Não importa. O importante são os números nas redes sociais.
É fato que essa onda de influenciadores digitais não é exclusividade de quem trabalha na área de comunicação. A crise afeta profissionais de todos os setores, afinal, estamos diante de uma geração de profissionais viciados em redes sociais, extremamente pressionados pelo mercado de trabalho e carentes de atenção.
O efeito Dunning-Kruger
O maior inimigo dos bons profissionais é o chamado efeito Dunning-Kruger, que diz que quanto mais conhecimento temos sobre algo, mais ignorantes pensamos que somos. O inverso também é real. Quanto menos conhecimento alguém tem sobre determinado assunto, mais essas pessoas costumam se superestimar.
Num cenário como esse, há também muitas oportunidades para aqueles que realmente estão focados em fazer seu trabalho acontecer. O difícil é lidar com a insegurança de quem olha para os lados e se vê rodeado de publicações e engajamentos que parecem reafirmar o tempo todo que você ainda não é bom o suficiente.
É difícil afirmar até quando isso vai continuar. Eu tendo a acreditar que antes de vermos uma melhora, vamos chegar no fundo do poço. Acho que estamos bem próximos disso, apesar de acreditar que ainda não chegamos lá. Enquanto isso, os maiores penalizados são os consumidores, que continuarão gastando o seu dinheiro em produtos e serviços cada vez piores.

