A Nestlé está saindo do negócio de sorvetes. A gigante suíça de alimentos anunciou nesta quinta-feira, 19 de fevereiro, que está em negociações avançadas para vender sua divisão remanescente de sorvetes para a Froneri, joint venture que ela mesma criou em parceria com o fundo de investimentos PAI Partners. A decisão é parte de uma reestruturação profunda da companhia, que busca se concentrar em quatro pilares: café, cuidados com animais de estimação, nutrição e alimentos e snacks.
A Froneri não é exatamente uma empresa alheia à Nestlé, a suíça detém 50% da joint venture, que foi criada em 2016 a partir da fusão das operações europeias de sorvetes da Nestlé com a R&R, empresa britânica do setor. A Froneri já controla marcas como Häagen-Dazs e, com a compra, passará a deter 100% das operações que ainda estavam sob o guarda-chuva direto da Nestlé.
As negociações envolvem a venda das operações de sorvetes no Canadá, Chile, Peru, China, Malásia e Tailândia, e as marcas incluídas no pacote vão de D’Onofrio e Parlour a Real Dairy e Lafrutta. No Brasil, as marcas de sorvete da Nestlé são LaFrutta (linha de picolés e sorvetes de frutas), Mega (linha de picolés de creme), Especialidades (sorvete de pote napolitano com Lollo, Galak e Sensação), versões especiais de Prestígio, Galak e Crocante, além da linha tradicional de sorvetes de pote de diversos sabores.
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O movimento é assinado pelo novo CEO da Nestlé, Philipp Navratil, que assumiu o cargo em setembro de 2025. Ele é o terceiro CEO da empresa em apenas dois anos, algo incomum para uma companhia centenária como a Nestlé. Navratil, que antes comandava a Nespresso, herdou uma empresa em crise de confiança: as ações da Nestlé acumulavam queda de mais de 18% nos últimos cinco anos antes do anúncio.
Logo ao assumir, ele anunciou o corte de 16.000 empregos, cerca de 6% da força de trabalho global, e passou a pressionar por uma organização mais enxuta. A reestruturação concentrará as operações da fabricante de KitKat e Nescafé em quatro categorias: café, cuidados com animais de estimação, nutrição e alimentos, e a empresa fundirá suas divisões de nutrição e ciências da saúde em uma única unidade de negócios.
A saída dos sorvetes não é uma decisão isolada. A Nestlé também anunciou o desinvestimento de sua divisão de águas e bebidas premium, que inclui marcas como Perrier e San Pellegrino, com prazo estabelecido para 2027. Vitaminas e suplementos também estão na lista de ativos a serem vendidos.
O contexto financeiro explica a urgência. Em 2025, as vendas somaram 89,49 bilhões de francos suíços, abaixo dos 91,35 bilhões registrados no ano anterior, e o lucro líquido caiu 17%, para 9,03 bilhões de francos. O maior recall de fórmulas infantis da história da empresa, que afetou mais de 60 países após contaminação de ingredientes, também pesou no resultado, com custo estimado de 75 milhões de francos suíços em devoluções e baixas de estoque.
Do lado positivo, a empresa informou que já alcançou 20% dos 3 bilhões de francos suíços em economias de custos previstas até o fim de 2027, e as ações subiram cerca de 2,8% após o anúncio, sendo a maior alta em quatro meses. Para 2026, a Nestlé projeta crescimento orgânico de vendas entre 3% e 4%.
A saída dos sorvetes representa o fim de uma era para uma empresa que, durante décadas, foi sinônimo do produto em vários mercados globais. Mas para Navratil, o recado é claro: a Nestlé do futuro será mais focada, mais ágil e menos dependente de categorias intensivas em capital e com margens mais apertadas. Café, pet care e nutrição, negócios com crescimento mais robusto e fidelização maior, serão o centro de gravidade da companhia daqui para frente.

